Dramaturgias da Performance
Conferência Internacional
Sobre
Datas
2–5 Dezembro 2026
A Conferência Internacional Dramaturgias da Performance surge dez anos após o Simpósio Performance Arte Portuguesa: 2 ciclos para um arquivo, que teve lugar no CCB, em Lisboa. Nesta última década, em que a performance arte ganhou reconhecimento histórico em contextos periféricos, a performance tornou-se um operador central da cultura contemporânea a nível internacional — o que tem sido descrito como a “era da performance” por autores como McKenzie (2001), Lepecki (2016) e Sennett (2025). Esta centralidade tem-se expandido, inscrevendo uma relação entre procedimentos de criação rastreáveis na arte da performance e dinâmicas do sentido geradas na relação dramatúrgica com diversos contextos disciplinares ou temáticos.
Pensámos as dramaturgias da performance a partir da barra oblíqua, /. Esta barra serve-nos como símbolo para sublinhar as extensões e, ao mesmo tempo, hibridizações das áreas que a performance tem abarcado. O sentido oblíquo serve também para dar conta das ambiguidades intrínsecas às dramaturgias da performance.
O que são ou o que podem ser as dramaturgias da performance? Como são construídas estas dramaturgias nas diversas áreas que convocam a palavra performance? Que diferenças e semelhanças apresentam nas diversas áreas? O termo dramaturgia é o mais adequado para todas as criações performáticas?
Perguntar “o que é a dramaturgia?” é uma questão que se apresenta cada vez mais frequente e é também de resposta cada vez mais escorregadia e imprecisa, num tempo em que o termo tem ganho cada vez maior appeal.
Como nos dizem Anne Hamilton e Water Chon no seu livro Dramaturgy the basics (Routledge 2023), na contemporaneidade, mais do que um texto ou mesmo uma prática, a dramaturgia é uma actividade que “permite uma abordagem subjetiva de um tema e a sua análise numa perspectiva de 360º”. Dizem ainda estes autores que “o que está no coração da dramaturgia é o próprio coração”, permitindo-nos colocar questões importantes como “ o que importa e por quê?” E “o que significa ser humano?” Por isso, mais do que uma ciência, a dramaturgia ou o papel dos dramaturgistas apresenta-se como uma sensibilidade criativa, especulativa e catalítica e ao mesmo tempo investigativa, laboratorial e problematizadora, que, “com dramaturgos” ou “sem dramaturgos”, como referem ainda Georgelou, Protopapa e Theodoridou em The Practice of Dramaturgy Working on Actions in Performance (Valiz 2016), “envolve todos os que participam na concepção de um processo artístico”.
Por isso, a base da dramaturgia é questionar, muitas vezes em conjunto, assumir-se um papel do dramaturgista ignorante frente a um problema ou problemática, como salienta Bojana Cvejić em The Ignorant Dramaturg (Sarma 2010), e de forma colaborativa e participada fazer perguntas que impliquem e se relacionem com o mundo contemporâneo, assumindo, nas suas palavras, “incerteza”, “risco” e “ousadia”.
Esse processo implica hoje não só dinâmicas de entrelaçamento, tessitura e interconexão entre diferentes culturas, técnicas e meios, como referem Fischer-Lichte, Weiler e Jost em Dramaturgies of Interweaving, Engaging Audiences in an Entangled World (Routledge 2022), como conceitos como cidadania, democracia radical e agonística, posicionamento, responsabilidade, entre outros, que no cruzamento com a performance e todos os seus sentidos conflituais e oblíquos, se re-inscreve entre vida e arte, enquanto Ágora, na contínua re-escrita performativa do corpo-arquivo-mundo.
A Conferência Internacional Dramaturgias da Performance é organizada pelo Grupo Performance & Cognição do Instituto de Comunicação da NOVA, Universidade NOVA de Lisboa (ICNOVA-FCSH-UNL), em parceria com o Centro de Estudos Interdisciplinares, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC-CEIS20).
A Conferência será um lugar de encontro entre Keynotes, Workshops, Performances e Comunicações ou Conferências-Performances de diferentes vetores oblíquos das Dramaturgias da Performance
O dia 2/12 será dedicado apenas a Workshops, alguns dos quais serão distribuídos pelos dias da Conferência de 3- 5/12. Em breve apresentaremos o programa dos workshops para inscrição complementar.
Palestrantes
Bojana Cvejić
Nascida em Belgrado (Jugoslávia) e radicada em Bruxelas desde 2001, é dramaturgista e escritora, cuja investigação abrange a teoria da performance, a teoria crítica, a filosofia e os estudos de dança. É autora de “Choreographing Problems: Expressive Concepts in European Contemporary Dance and Performance” (Palgrave Macmillan, 2015, Maska 2021 em esloveno) e co-autora de cinco livros, sendo o mais recente “Toward a Transindividual Self: A Study in Social Dramaturgy” (escrito em coautoria com Ana Vujanović, 2022). Cvejić é Professora de Teoria da Dança na Academia Nacional de Artes de Oslo. Está ligada à P.A.R.T.S. (Bruxelas) desde 2002, onde leciona teoria da performance e da dança e supervisiona o programa de teoria. Desde 1996, Cvejić criou, interpretou ou colaborou em inúmeras obras de teatro musical, dança e teatro na Europa como co-diretora, dramaturgista ou intérprete. Cvejić também foi co-autora de vários vídeos e videoinstalações que exploram a dança e a coreografia, como …in a non-wimpy way… (com Steve Paxton, 2013), WAR de Yvonne Rainer (2013) e Spatial Confessions (para a Tate Modern, 2014). A sua investigação em coreografia social, transindividualidade e dramaturgia prática leva-a, politicamente, a coorganizar plataformas coletivas de autoeducação e produção experimental (Performing Arts Forum, Saint-Erme desde 2005; TkH/Walking Theory 2001-17). Cvejić colabora com Jonathan Burrows na sua investigação sobre a sensação sentida da criação e a coreografia como meio de cognição motora.
Janaína Leite
Janaina Leite é atriz, diretora, dramaturga e pós-doutora pela Escola de Comunicação e Artes da USP. Nos últimos anos, em trabalhos como Stabat Mater, Camming 101 Noites e História do Olho - um conto de fadas pornô noir, vem pesquisando as relações entre teatro e pornografia, interessando-se especialmente por linguagens híbridas e pela perspectiva ob-cena, que aproxima teatro e performance, arte e vida, explorando as fronteiras difusas entre práticas artísticas e antropológicas. Em 2024, a convite do Lift Festival, em Londres, e da companhia Clean Break, estreou The Trials and Passions of Unfamous Women, aproximando práticas jurídicas e teatro. Seu último trabalho, Deeper, é uma experiência imersiva em realidade virtual, na qual investiga o universo digital e os estados dissociativos de consciência em situações-limite. A pesquisa deu origem também à palestra performance O corpo material e imaterial em suas borderlines apresentada no Brasil, Chile e Portugal. Aliando teoria e prática, publicou, em 2014, pela Editora Perspectiva, o livro Autoescrituras Performativas: do Diário à Cena e, em 2025, lançou O Feminino e a Abjeção - Ensaios sobre a (Ob)cena Contemporânea pela Annablume. Seus trabalhos já foram apresentados em países como França, Espanha, Portugal, Chile, Bélgica, México, Holanda e Alemanha. Desenvolve agora o projeto inédito "A caixa preta ou how to hide the turtle” sobre morte e imagem na era digital. Mais info: https://www.janainaleite.com.br/
Sarah Fdili Alaoui
Sarah Fdili Alaoui é coreógrafa, bailarina, analista de movimento Laban e professora assistente no Creative Computing Institute, University of the Arts London, nas áreas de design de interação, interação entre humano e computador, bem como a dança e tecnologias. É doutorada em Arte e Ciência pela Universidade Paris-Sud 11 e pelos institutos de investigação IRCAM-Centre Pompidou e LIMSI-CNRS. Possui um mestrado pela Universidade Joseph Fourier e uma licenciatura em Engenharia pela ENSIMAG em Matemática Aplicada e Ciências da Computação, além de cerca de 30 anos de formação em ballet e dança contemporânea. Os seus interesses de investigação incluem a interseção entre o design de interação e a criação de dança e coreografia. Sarah Fdili Alaoui tem sido a iniciadora de um vasto número de projetos de investigação artística e colaborações com bailarinos, coreógrafos e tecnólogos para criar espetáculos de dança e instalações interativas, bem como sistemas de apoio à coreografia e à aprendizagem da dança, documentação e arquivo. Mais: https://saralaoui.com/
André Lepecki
André Lepecki (Brasil, 1965) – Ensaísta, dramaturgista e curador independente radicado em Nova York. Professor Titular do Departamento de Estudos da Performance da New York University e Vice-Diretor Associado do Centro de Pesquisa e Estudos da Tisch School of the Arts, NYU. Doutor pela NYU. Editor de diversos livros sobre teoria da performance e da dança e autor de Exhausting Dance: Performance and the Politics of Movement (2006, em Portugal publicado em 2024 com o título Esgotar a Dança: A performance e a política do movimento); Singularities: Dance in the Age of Performance (2016); Idiorrítimia (2018); e Co(reo)imaginar: ensaios com a dança e a performance (2026). Curador de festivais e projetos para a Haus der Kulturen der Welt (HKW-Berlim), Museum of Modern Art Warsaw, MoMA PS1, a Hayward Gallery, a Haus der Kunst, a Sydney Biennale 2016, entre outros. Recebeu o “Best Performance Award 2008” da AICA/US pela co-curadoria e direção da remontagem de 18 Happenings in 6 Parts, de Allan Kaprow (Haus der Kunst, 2006; PERFORMA 07). Desde 2008, colabora em diversas ações da artista brasileira Eleonora Fabião. Em 2024, foi curador da exposição online Soiled – Paul McCarthy’s Early Performance Works (1971–76) para a galeria Xavier Hufkens.
Chamada de Propostas
Convidamos investigadores e artistas a apresentar propostas de comunicação, conferência-performance, performances ou outros formatos (dentro da logística possível de conferência e dentro de um limite temporal de 15 minutos), em português ou inglês, tendo em conta os vetores oblíquos que apresentamos acima no texto.
Áreas Conceptuais Sugeridas
Directrizes para as Propostas
Aceitamos propostas em inglês ou português, num documento único em formato PDF (até 10 MB). As propostas devem incluir:
- Título da proposta
- Identificação da autora/do autor (nome, afiliação institucional, uma breve biografia, país e correio eletrónico)
- 3 a 5 palavras-chave
- Resumo (300–500 palavras) com uma breve bibliografia
- Opcionalmente 1 ou 2 imagens
As propostas devem ser enviadas através do formulário disponível.
Datas e processo de seleção
Inscrições
Limite de inscrições
30 Setembro 2026
Pagamento da inscrição
Depois do pagamento, solicitamos o envio de comprovativo para o seguinte endereço de email: dramaturgiesofperformance@fcsh.unl.pt
Comissão Organizadora
Direção da Conferência
- Cláudia Madeira (ICNOVA-UNL)
- Fernando Matos Oliveira (CEIS20-UC)
Produção Executiva
Cláudia Madeira e Miriam Freitas
Comissão Organizadora
Cláudia Madeira, Marta Aksztin, Miguel Simões, Liz Vahia, Silvia Pinto Coelho, Raquel R. Madeira, Miriam Freitas.
Coordenação Workshop & Performances
-
Cláudia Madeira, Carla Fernandes, David dos
Santos, Jorge Louraço Figueira, Raquel R.
Madeira, Sílvia Pinto Coelho, Verónica Metelo.
Comissão Científica
Ana Pais, António Figueiredo Marques, Carla Fernandes, Cláudia Madeira, Clara Gomes, David dos Santos, Fernando Matos Oliveira, Filipe Figueiredo, Francesca Negro, Jorge Louraço Figueira, Nuno N. Correia, Paulo Filipe Monteiro, Paula Varanda, Pedro Florêncio, Sandra Dias Guerreiro, Sílvia Pinto Coelho, Vânia Gala, Verónica Metelo.